O cenário cervejeiro brasileiro é um campo de disputa apaixonante, com a categoria premium sendo o principal palco dessa rivalidade. Para o consumidor, isso significa mais qualidade e variedade. Para as gigantes, significa uma guerra por cada ponto percentual de share. Após cerca de uma década, a Ambev reassumiu a liderança nesse segmento de alto valor, um feito notável em um mercado que viu o consumo de rótulos mais caros saltar de apenas 4% em 2012 para impressionantes 24% atualmente. A virada da Ambev no terceiro trimestre de 2025 não passou despercebida. A rival Heineken rapidamente reagiu. A companhia holandesa inaugurou uma megafábrica bilionária no Brasil. Este artigo analisa o xeque-mate da Ambev e o movimento de contra-ataque da Heineken, detalha as estratégias de portfólio e a polêmica que define o que é, afinal, uma cerveja premium neste país.
A Retomada Histórica e o Gosto da Virada
O anúncio da Ambev, no terceiro trimestre de 2025, chacoalhou o mercado: a empresa retomou a liderança do segmento premium. A companhia alegou que seu portfólio, composto por marcas consagradas como Corona, Stella Artois, Original e Spaten, alcançou quase 50% de participação de mercado na categoria e superou a concorrente holandesa. O desempenho é sólido. As vendas de cervejas premium da Ambev cresceram 15% em relação ao ano anterior.
Embora o volume total de cerveja no país tenha registrado retração, a Ambev conseguiu aprimorar sua rentabilidade. A migração dos consumidores para produtos de maior valor agregado sustentou esse avanço. Os resultados financeiros foram expressivos. A Ambev registrou um lucro líquido de R$ 4,86 bilhões, com um crescimento de 36,4% na comparação anual, e alcançou uma receita líquida de R$ 20,8 bilhões no terceiro trimestre de 2025. A margem EBITDA ajustada se ampliou para 33,9%.
A retomada da liderança é vista como fruto de uma estratégia que o Diretor Financeiro da Ambev classificou como um exercício de “ambidestria”. Em outras palavras, a empresa mostrou a capacidade de crescer em valor sem abrir mão da escala que sempre a caracterizou. A empresa também explorou novas categorias. As cervejas de menor teor alcoólico, sem álcool e de baixa caloria, chamadas internamente de balanced choices, tiveram um crescimento de mais de 60% no Brasil.
O Novo Jogo de Xadrez: A Estratégia do Portfólio Ambev
A Ambev utilizou uma estratégia de portfólio e execução de mercado como seus grandes trunfos. A companhia investiu em marketing agressivo. Ademais, ampliou a oferta de formatos e embalagens, além de buscar se adequar às diferentes ocasiões de consumo e condições de preço.
Cada marca de alto valor possui um posicionamento estratégico bem definido:
• Spaten combinou tradição e força no portfólio. Ganhou forte presença em eventos cervejeiros, gastronômicos e também em eventos esportivos de luta.
• Corona manteve sua narrativa associada ao estilo de vida descontraído e à natureza. Ampliou seu alcance entre consumidores mais jovens.
• Stella Artois explorou o território da sofisticação urbana. A marca se associou à gastronomia e ao universo do tênis.
• Original atua como uma ponte entre a tradição brasileira e o consumo premium cotidiano.
Essa variedade de rótulos permite à Ambev dialogar com públicos distintos. A empresa consegue conversar desde o consumidor aspiracional até o entusiasta mais experiente, mantendo a relevância e ampliando o tíquete médio.
A Reação em Minas: A Nova Fortaleza da Heineken
Enquanto a Ambev celebrava sua virada, a Heineken enfrentava um período de desaquecimento no Brasil. O grupo holandês reportou uma queda de dois dígitos no volume de vendas no país, o que agravou o declínio global de 4,3% nos volumes totais de cerveja.
A resposta da Heineken veio de Minas Gerais. A cervejaria inaugurou em Passos (MG) uma de suas maiores unidades no Brasil. A fábrica, que custou R$ 2,5 bilhões, é o maior investimento da companhia no país e se configura como uma declaração clara de intenções de reagir ao avanço da Ambev.
A nova unidade tem uma capacidade inicial de cinco milhões de hectolitros de cerveja puro malte por ano. A capacidade foi desenhada para ser dobrada conforme a demanda aumenta. O foco principal da fábrica será a produção dos rótulos premium Heineken e Amstel. O CEO da Heineken Brasil, Maurício Giamellaro, afirmou que o Brasil segue sendo o mercado número 1 no mundo para essas duas marcas. A escolha estratégica de Minas Gerais deve-se à relevância de consumo do estado e à logística eficiente para abastecer o Sudeste e parte do Centro-Oeste. A fábrica, construída em uma área equivalente a 140 campos de futebol, operará com uso de 100% de energia renovável.
A Polêmica do Puro Malte e a Definição de Premium
Apesar da euforia da Ambev, a Heineken contesta veementemente os números da rival. A empresa holandesa argumenta que o verdadeiro nicho de crescimento e liderança é o de cervejas puro malte. A Heineken sustenta que 60% do segmento premium no Brasil é ocupado por cervejas puro malte. O CEO Giamerallo afirmou que, de cada 10 garrafas de puro malte vendidas, 6,5 são da Heineken.
A Heineken argumenta que a vantagem se deve à sua definição de cerveja puro malte, que utiliza apenas três ingredientes: água, malte e lúpulo. O executivo da Heineken questiona a inclusão de rótulos que não são puro malte na contabilidade da Ambev. Ele citou a Original em lata como um produto que, nas condições atuais de preço, não deveria ser incluído no corte premium.
A Ambev respondeu reforçando que seu portfólio premium, que inclui Corona, Stella Artois, Chopp Brahma, Original e Spaten, pertence ao segmento independentemente do canal de venda ou embalagem. O Diretor Financeiro da Ambev reforçou a capacidade operacional e de execução da empresa em um mercado cada vez mais fragmentado. O Grupo Heineken, por sua vez, reforça a qualidade. A levedura tipo A da Heineken é cultivada em Amsterdã. Todo lote produzido no Brasil é analisado e aprovado fisicamente na Holanda antes de chegar ao mercado.
Em última análise, o que está em jogo é a própria definição de cerveja premium no Brasil.
A reconquista da liderança pela Ambev no segmento premium é mais do que um símbolo de recuperação. É um indicativo de maturidade estratégica. No entanto, a inauguração de uma fábrica de R$ 2,5 bilhões pela Heineken simboliza o início de uma nova fase de disputa, que promete ser intensa. A Heineken busca consolidar seu apelo de pureza e qualidade com mais capacidade produtiva, com liderança no espaço em outras unidades para rótulos como a Eisenbahn, que completa seu portfólio puro malte. O segmento premium continuará sendo o principal campo de batalha no Brasil nos próximos anos, e a resposta da Heineken definirá o quão duradoura será essa virada de mesa.
Assim como em uma partida de futebol eletrizante que termina empatada, as gigantes cervejeiras estão apenas no intervalo. O segundo tempo promete lances ainda mais emocionantes. A única certeza é que nós, os consumidores, sairemos ganhando com tanta qualidade em jogo. Saúde!

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