Poucas coisas são tão eficientes no mercado cervejeiro quanto uma palavra bem escolhida. “Premium” talvez seja a mais poderosa delas. Não descreve estilo, não define técnica, não impõe padrão objetivo. Ainda assim, cobra caro. Nas últimas duas décadas, esse rótulo passou a acompanhar um tipo muito específico de produto: lagers supostamente especiais, vendidas como refinadas, artesanais e superiores, mas que pouco diferem de uma pilsner industrial correta, apenas mais cara e melhor vestida.
O fenômeno merece análise. Não por indignação, mas por higiene intelectual.
O que, afinal, é uma lager comum
Lager não é sinônimo de simplicidade malfeita. Trata-se de uma família de cervejas fermentadas com leveduras de baixa fermentação, em temperaturas controladas, com posterior período de maturação a frio. Pilsners, Helles, Dortmunder e Vienna pertencem a esse grupo. O perfil clássico privilegia equilíbrio, clareza sensorial e alta precisão técnica. Erro pequeno aparece fácil.
Produzir uma boa lager exige controle, tempo e estabilidade. Produzir uma lager comum, correta e sem defeitos, não constitui feito extraordinário. Trata-se do ponto de partida do mercado moderno.
Onde nasce a “lager premium”
O problema surge quando esse ponto de partida passa a ser apresentado como ponto de chegada. Muitas lagers ditas artesanais premium não propõem releitura de estilo, não buscam complexidade adicional, não apresentam identidade técnica clara. Limitam-se a repetir a estrutura de uma pilsner básica, com leve ajuste cosmético.
O lúpulo aparece de forma simbólica, apenas para permitir descrição aromática na embalagem. A carga permanece insuficiente para alterar o perfil clássico. O malte mantém caráter neutro, com base em pilsner malt padrão. A levedura não traz assinatura. O resultado é previsível, limpo e esquecível.
Nada disso constitui defeito técnico. O equívoco está no discurso.
Marketing de virtudes vazias
Algumas práticas tornaram-se recorrentes. Fala-se em “pureza” como se água, malte, lúpulo e levedura fossem exclusividade de poucos. Promete-se “maturação prolongada” sem indicar tempo, método ou impacto sensorial real. Exalta-se ausência de adjuntos como se isso, isoladamente, garantisse qualidade superior.
Adjuntos, aliás, não são vilões automáticos. Arroz e milho, quando usados com critério, reduzem corpo e deixam a cerveja mais seca, algo desejável em vários estilos. O problema não é o adjunto, mas a narrativa que o transforma em pecado oculto ou em virtude secreta, conforme convém ao preço.
O conforto da lager “especial”
Há também um fator psicológico. A lager premium oferece sensação de escolha segura. Não desafia o paladar, não exige adaptação, não provoca estranhamento. Entrega familiaridade com verniz de sofisticação. Para muitos consumidores, isso basta. Para o mercado, isso rende margem.
O risco aparece quando o consumidor acredita estar explorando algo novo, quando apenas circula dentro do mesmo perímetro sensorial, pagando mais por isso.
Ciência, técnica e honestidade
Do ponto de vista técnico, não existe problema em vender uma lager simples. O problema surge quando o discurso sugere complexidade inexistente. Cerveja artesanal não é sinônimo de cerveja elaborada. Pequena escala não cria mérito automático. Preço elevado tampouco.
Uma lager realmente diferenciada costuma mostrar algo concreto. Perfil de malte específico, água ajustada para estilo, fermentação que deixa marca sensorial, amargor bem definido, frescor perceptível. Nada disso precisa de adjetivos grandiosos. Basta aparecer no copo.
Como usar esse conhecimento na escolha
Ao se deparar com uma lager premium, vale perguntar, ainda que mentalmente, o que ela oferece além do básico. Qual estilo declara seguir. Qual característica sensorial justifica o posicionamento. Se a resposta se resume a pureza, tradição vaga ou processo indefinido, o produto provavelmente entrega apenas correção técnica.
Isso não impede o prazer. Apenas ajuda a alinhar expectativa e preço.
A lager é um dos maiores feitos da história da cerveja. Clara, estável, precisa e democrática. Transformá-la em objeto de fetiche comercial empobrece mais o discurso do que o copo. Beber com prazer não exige ingenuidade. Um pouco de ceticismo costuma harmonizar bem com qualquer estilo, sobretudo os mais límpidos.

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